Voz da Centelha

Já teve a sensação de sentir saudades de algum lugar, época, sem nunca ter estado nesse local ou tempo? Quando eu produzi a série “Espetáculo da Vida Pós-Moderna”, eu estava assim. Ficava observando o mundo, vendo as transformações, lendo os tempos e os amores líquidos (Bauman), analisando os matizes, ouvindo as notas musicais da sociedade… E vi que as cores estavam se perdendo. Havia nuances diferentes na pintura do mundo, e elementos audíveis dissonantes nessa composição. Uma pequena confusão no nosso cenário.

"Espetáculo da Vida Pós-Moderna - Em Busca de Sentidos" (Série)
Camila Lagoeiro | 26cm x 35cm x 4cm | Técnica Mista

Gosto muito de ler sobre as origens da criação humana. Nas minhas pesquisas, constatei que fomos criados do modo mais lindo e perfeito, mas, por várias razões e métodos, fomos sendo modificados com o passar do tempo. Ganhando em alguns pontos, mas, perdendo elementos, capacidades, qualidades… Entretanto, ainda permanece uma porção do que sobrou em nós dos seres humanos originais; tipo uma “centelha”. Uma flamulazinha; uma “centelha divina original”.

Penso que essa centelha corresponde a uma energia consciente. E que se comunica constantemente. É a vontade mais sincera, mais correta e mais interna possível. A voz que soa profundo: o ‘chamado’, a “intuição verdadeira”. E que é atrapalhada pela voz mais externa (ou vozes): entendo como a voz do “ego”, o forte defensor da personalidade. É aquela voz que te qualifica e te dá força, mas que, ao mesmo tempo, repte: “Não vai dar certo”, “Tá tudo errado”, “Você não tem capacidade”, “O que os outros vão pensar?”, “Para de mimimi”… A voz do ego é a mais tagarela. A voz da centelha divina é tranquila, porém segura. “É isso, e acabou”.

Quando eu pintei “Espetáculo da Vida Pós-Moderna”, eu senti a centelha falando comigo. Dizia que a saudade que eu tinha de um lugar e de um tempo era um desejo muito forte vindo da infância, de me voltar para a Natureza, e, assim, ajudar a limpar as contaminações cerebrais espalhadas na sociedade. E eu teria de conquistar este feito nessa Era. Sem lamentar o passado, e aceitar as mudanças futuras. Então, fui – louca – atrás do Sol, das árvores, das culturas regionais, da pureza e da purificação… Saí da ilusão. E notei uma disputa interessante:

O ego enche o saco da centelha divina, enquanto que a flamulazinha nem liga: só finge que se importa, mas joga a verdade dela no ar e espera brotar. Sem ansiedade. Até que, de tanto a pessoa passar a ouvir a centelha, o ego é vencido pelo cansaço. E vai embora? Não; aprende a trabalhar com a centelha.

A verdade aparece. A sua verdade aparece. E a briga cessa. A vida começa a combinar as cores e os sons novamente. É o caminho ideal. E o caminho ideal sempre surgirá, com cores e sons vibrantes. É só dar ouvidos e espaço para a centelha divina original. E deixe seu eu verdadeiro atuar. E ele atua, com prazer, e sem cansar.

Até! ^^

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