“Se Soltando pra Vida”

A primeira vez que dei aula de artes para alunos do ensino médio foi em meu estágio da faculdade. Fiquei estudando aqueles adolescentes de longe antes de entrar pra sala. Eu não era tão mais velha que eles, era uma diferença de uns 5 anos no máximo.

Preparei um tema pra aula, mas não preparei o desenvolvimento, pois, isso iria depender da energia, comportamento e estado emocional dos alunos. Eu não poderia descartar o que eles sentiam e como seria sua estrutura psicológica. Usei o desenho como ferramenta de trabalho. Todos estavam conversando, achando que teriam uma aula comum de teoria de artes da apostila. Mas, não. Desenhei na lousa, em silêncio, exemplos de movimentos de figurativos com linhas guias simples. Eu quis usar linhas para soltar a coordenação motora das mãos deles. E não seria muita coisa? Pra reproduzir, a princípio, sim. Mas, para observar, não.

Eles ficaram em silêncio, olhando. Quando terminei, virei pra eles e disse: “Bom dia”. Apresentei-me, e apresentei meu currículo. E, pra minha surpresa, ficaram felizes! Adoraram ver como é possível desenhar usando “truques” simples. Que é possível viver fazendo o que ama. E, especialmente, adoraram ver os esboços que fiz. Notaram que riscar, riscar de novo, riscar por cima, apagar o traço faz parte. Faz parte da arte. Faz parte da vida. E é necessário para crescer. Não é um sacrifício, são desafios. E é gostoso passar por isso. É parte da evolução.

Era uma sala com cerca de 40 alunos. E eu vi, emocionada, depois que apliquei o exercício, todas aquelas crianças pré-adultas me chamando para mostrar o desenho que haviam feito e tirar dúvidas! No geral, seus traços eram pouco maleáveis e pesados, devido a anos de limitações. Mas estavam soltando; e se soltando pra vida.

“Ilimitado” | Camila Lagoeiro | lápis de cor sobre papel

Ouvimos, há muito tempo, de autoridades, familiares, etc., coisa como “trabalho é algo pesado, e que é assim, com sacrifícios, lutas e guerras que se ganha vida”. A sociedade nos limita, e a gente, por conseguinte, acaba se autolimitando. Muitas crianças e adolescente não têm exemplos próximos de como se ganhar a vida artisticamente. Ganhar a vida com amor e sabedoria. E muita gente não imagina que trabalho, prazer e missão interna deveriam andar juntos.

Pergunte-se se a vida que você vive é aquela que você sempre quis viver. Pergunte-se o porquê dessa ideia social de viver em sacrifícios eternos. Questione a falsa beleza se automutilar para mostrar autoridade. Pergunte-se quem impôs isso tudo a você. E por que você aceitou. Por que o paraíso é algo futuro, quando deveria ser presente? Questione. Vão falar que você enlouqueceu, sim. Mas a escolha é sua. Quer se prender, ou quer viver? Respeite-se. E solte as amarras. Solte um traço das mãos. Solte um movimento de dança do corpo. Solte uma nota no violão. Solte-se para seus sonhos pessoais, para a viagem que sempre quis fazer. Há solução pra tudo quando temos convicção no que queremos. Solte o autojulgamento de você, e busque a felicidade. Solte. Se solte. E se solte para a vida!

Até!

2 comentários sobre ““Se Soltando pra Vida”

  1. Texto maravilhoso, que possamos nos soltar e buscar viver e desenvolver o amor no presente, pois esse é o caminho da eterna felicidade, que tanto se busca nesse mundo. Parabéns ♡

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