Linhas Retas, Curvas e Divisões de Conceitos

Físicas ou imaginárias, as linhas estão em todo o lugar. Mesmo que discretas e ocultas, elas fazem parte do desenho das árvores, das casas, prédios, carros, animais, pessoas… Posso ver a imagem de uma nuvem e notar que se trata de um amontoado de volume ao invés de linhas. Mas aqui na dimensão 3d em que vivemos, nosso cérebro dá muito valor às extremidades dos objetos para se situar nesse espaço, ou seja, o contorno das linhas.

Observe essas duas imagens:

“Composição II em Vermelho, Azul e Amarelo”
 Piet Mondrian, 1930

“As Artes: Dança”
Alphonse Mucha,1898

Consegue “sentir” a diferença entre elas?

De acordo com Carlos J Biedma e Pedro G. Dalfonso no livro “Linguagem do desenho – Teste de Wartegg-Biedma”, as linhas retas são fruto de mentes mais racionais, que trabalham com valores exatos, cálculos, elementos concretos. Já as linhas curvas, redondas e espiraladas são a expressão das emoções, do romantismo, da imaginação, da sensibilidade do artista ou da pessoa que as cria.

A composição de Mondrian (a primeira acima) apresenta apenas linhas retas e cores chapadas, sem ideias de luz, sobra e volume. Nem mesmo expressões humanas, e muito menos um figurativo humano. Quando a gente olha pra uma arte assim, o que nos toca primeiro é o cérebro, a razão, a exatidão. É uma obra do período do movimento do Concretismo (1917, fundado pelo próprio Mondrian), onde, na época, os artistas buscavam trazer à tona a concretude das ideias em formas geométricas, o racional, o antiemocional, o “pronto”.

Na pintura de Alphone Mucha, a segunda, temos totalmente o oposto: muitas linhas curvas e redondas, composição de cores com luz, sombra, volumes, um figurativo (a moça), ideias de movimentos circulares, sensação de romantismo, sensibilidade, e até infinitude. Pertence à época do movimento Art Nouveau (“Arte Nova”), presente, principalmente, na arquitetura, e alcançou o período de 1890 até os anos 1920. O Art Nouveau exibia, além das marcantes linhas curvilíneas, ornamentos com elementos da natureza, como flores e demais plantas. Foi uma reação à arte acadêmica do século XIX, dotada de “regras” e “exatidões”.

O Art Nouveau veio antes do Concretismo, que, por sua vez, trouxe uma reação às sensibilidades das linhas curvadas e das cores que dominavam na época. Mas sempre que eu preciso comparar duas situações opostas, eu prefiro começar com o “concreto”, e depois com o “sensível”, para que as mentes leitoras mantenham um relaxamento mental no final do texto.

Simples mudanças de manuseio de traços fazem uma grande diferença, não?! As alinhas retas,quando se fecham num quadrado ou num retângulo, nos transmitem, conscientemente ou não, uma sensação de “fechamento”, “acabou aqui”, “é isso e pronto”, “siga as regras”. Já as linhas curvas trazem uma ideia de “maleabilidade”, “sem regras”, “tudo pode acontecer”, “siga o fluxo”. As linhas redondas, os círculos e esferas, dão ideia de união, de “entrelaçamento harmonioso”.

Há pessoas que se sentem muito bem em uma sala retangular, com janelas retangulares, sem plantas ou adereços. E há pessoas que não ficam confortáveis em ambientes assim; preferem uma sala redonda, uma mesa redonda, e ornamentos curvos enfeitando o local (é meu caso rsrs). E não há nada de errado com isso. Cada ser humano tem suas próprias maneiras de viver.

Então, o correto seria escolher um lado e excluir o outro? Não! Aqui na terceira dimensão do Planeta Terra, não. É preciso equilibrar. Equilíbrio, sempre. Muita racionalidade traz insensibilidade. Muita emotividade traz desleixo. É preciso achar um meio termo entre ambos, mesclar os elementos: um pouco de cada, ou mais de um e menos do outro, mas que haja a atuação dos dois polos. A divisão, no geral, nos tornam presas fáceis de manipulação (veja a divisão entre torcidas de times de futebol, partidos políticos, fãs fanáticos de músicos de estilos opostos… e note o quanto essa divisão não traz solução).

É gostoso prestar atenção nesses detalhes: se conhecer e conhecer o mundo através da arte. Sigamos assim, observando, sentindo e analisando, sempre respeitando gostos, ideias e sentimentos. Porém, estando “acima” das divisões. Busquemos o equilíbrio!

Até!

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