Infringindo Consensos na Pintura

Existem regras na arte? Regras implicam em: obrigação de se fazer algo, sujeito ou não a alguma punição. Regras existiam na pintura em épocas antigas, como a Idade Média, a era do Renascimento, dentre outras.

Agora, atualmente, há as regras específicas. Para um concurso, um evento, há regras de participação e critérios de avaliação do trabalho. Mas, de modo geral, fora as questões específicas, vejo como a existência de consensos. Existem consensos para uma boa obra, tanto na qualidade física, quanto para o desenho, a pintura, a arte em si. Por exemplo: Usar materiais de ótima composição, respeitar o tempo de secagem das tintas, usar óleo de linhaça ou de nozes – dependendo do caso –, etc.

Fiz uma série de pinturas, onde me coloquei uns desafios que me fez “mexer no consensos”: Meu desafio 1 foi mudar a cor das sombras.
Confesso que fazer a sombra com a mistura Verde Vessie, Magenta e Azul Ultramar me dava preguiça! Até mesmo as outras opções de mistura de preto e tons terrosos. Eu estava a fim de algo mais prático.

“Acho que preciso pensar” | Acrílica sobre tela | 30x40cm

Ao mesmo tempo, eu precisava balancear a ideia a ser pintada: a definição das sensações, simultaneamente, com a intenção de “algo não acabado”. Ou seja, o fixo e o não-fixo. Duas coisas opostas num mesmo cenário. Teoricamente, um anularia o outro: ou não haveria nada, ou um se sobressairia. Desafio 2.

Mas, dentro disso tudo, o desafio maior que eu precisava enfrentar (desafio 3)era o “sair da dualidade”. Sair do lado certinho, mas também não me acomodar no lado da zoeira. Ficar ‘acima’ dos lados. Nem lá, nem cá, mas transcender. Então veio o plano.

Então, digamos que o que usei foi “infringir um consenso da pintura”: não preparei a tela.

Não lixei, não passei as demãos de massa pra alisar a superfície, nada disso. Desenhei direto, e ainda deixei os traços na tela, sem apagar. E só desenhei os traços básicos, dos elementos grandes, como os rostos. E depois pintei. E desenhei com as tintas enquanto pintava. Nas sombras, usei Gris de Payne. Feito. Finalização e acabamento mesmo, fiz só por último, com um verniz mais natural, pra proteger a arte. E assim, eu cheguei ao objetivo que queria.

Fiz certo ou errado? Bom, meus objetivos eram mudar a cor das sombras, trazer sensações definidas com um ar de algo inacabado, e ainda, pessoalmente, transcender a dualidade na execução da obra. E eu fiz isso. Escolher entre o certo e o errado já me tiraria da ideia da transcendência. Digo apenas que fiz uma escolha consciente. Passei por cima dos consensos gerais, mas atingi os objetivos pra que minha pintura ficasse como eu sentia que ela tinha de ser. Apenas isso. E ninguém saiu ferido! Isso é extremamente importante (certifique-se de não ferir ninguém e nem a você mesmo ao infringir uma regra ou um consenso)! Pelo contrário, foi muito carinho colocado na arte. Missão cumprida!

Até a próxima! ^^

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *