Arquivos mensais: outubro 2016

Em Alguma Dimensão – Parte 2 – Final

01-30-09-2016

“Acho que Preciso Pensar”
Camila Lagoeiro | 20x30cm | Acrílica sobre tela | 2010

O dia amanheceu. Mas estava diferente. O céu estava cinza, e o lago da aldeia estava congelado. Minha mãe, terapeuta da aldeia, estava triste, mas não dizia o motivo. Meu amigo azul esverdeado das estrelas veio sozinho, me avisar sobre um confronto muito próximo com alguma aldeia vizinha. Eu disse a ele que não temos vizinhos, e se tivermos um dia, seriam bem-vindos. Disse-me para exercitar novamente a desconfiança.

Um moço desconhecido apareceu na nossa aldeia. Era forte, alto e de pele clara como nós. Tinha bigodes e cabelos curtos, acima dos ombros. Seus cabelos eram mais claros, eram loiros levemente acobreados.  Tinha um semblante estranho: sorria com os lábios, mas as sobrancelhas e os olhos ‘não sorriam’. Ele era…“denso”. Meu pai o recebeu. Veio dar-nos boas-vindas. Disse que era do clã ao lado. E foi embora.

No final da tarde, antes do sol se pôr, aquele moço apareceu de novo, sorrindo, mas, novamente, um sorriso estranho: não era sereno. Tinha armas nas mãos.  Atrás dele, havia muitos homens iguais a ele, e todos armados com lanças, flechas e martelos, utensílios que eu e meu povo usávamos para práticas esportivas de concentração e fortalecimento corporal. Vinham em nossa direção.  Não conhecíamos aquela sensação. Toda a nossa tribo só ficou olhando. Até que um daqueles “densos” atirou uma flecha sobre uma das casas da aldeia, vindo a destruir uma pequena parte da cobertura. Assustamos. Nosso lago estava congelado, e corremos pra lá.

Os densos vinham em nossa direção. Atiraram suas flechas, acertando alguns de nós. Havia sangue, dor e sofrimento. O gelo do lago havia se rompido. Todos corriam desesperados, e alguns se afundaram ou foram pisoteados. Os densos tiravam nossa vida e comiam nossa carne, com muita voracidade. Não sei onde estava minha família. Eu estava escondida atrás de uma das casas da tribo, não fui pro lago. Estes homens eram frios! E era uma frieza muito diferente do clima da nossa região, uma frieza…má.

Até que uma flecha me atingiu. Atingiu-me na altura no estômago, mais um pouco pra esquerda, perfurando outros órgãos. Eu caí no chão, sem forças. O denso dono da flechada veio em minha direção, assustado. Tinha os cabelos pretos. Olhava-me agonizando, querendo ajudar. Mas seu companheiro o puxou de volta pra batalha. Eu chorava de frustração.  Toda a beleza da nossa aldeia havia sido destruída.  Toda a alegria, toda a positividade, todos os elementais. E eu nem sabia a razão daquilo tudo! Agora descobri o que é a maldade. E usei o exercício da desconfiança muito tarde. Meu corpo oscilava de temperatura. Perdi a capacidade de mantê-la normalizada. Agora eu odiava o frio. Estava triste e amarga. Minha criança interior havia desaparecido. Eu queria que tudo isso acabasse e voltasse ao normal. Decidi me desligar do meu corpo; desanimei completamente dessa situação, não vi solução. Meu amigo azul esverdeado veio me buscar. Saí em forma de luz. Foi um aprendizado muito doloroso sobre a maldade. Ele disse que o ciclo das encarnações me ajudará a curar essa dor, por mais complicado que esse esquema seja.